Existe uma caminhada que acontece dentro do coração quando começamos a viver as Bem-aventuranças não apenas como palavras do Evangelho, mas como um caminho de transformação. Depois de refletirmos sobre a pobreza de espírito, os que choram e a mansidão, chegamos agora à quarta Bem-aventurança: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.” (Mt 5,6) Mas o que significa, de verdade, ter fome e sede de justiça?
No capítulo 4 de A Felicidade onde não se espera, Jacques Philippe nos conduz a uma compreensão muito mais profunda dessa palavra. Não se trata apenas de desejar que as coisas sejam corretas ou que cada pessoa receba aquilo que merece. É desejar ardentemente que Deus seja conhecido, amado e esperado.
Foi justamente nesse ponto da leitura que encontrei um eco que me fez voltar o olhar para Fátima. As palavras do livro me fizeram lembrar da oração ensinada pelo Anjo de Portugal aos pastorinhos:
“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.”
O que essa oração tem a nos revelar sobre a fome e a sede de justiça? Talvez descubramos que, quando a dor de ver Deus não amado nasce em um coração que O ama, ela pode se transformar em oração, reparação e amor.
Jesus poderia ter dito simplesmente: “Bem-aventurados os que desejam a justiça”.
Mas Ele escolhe palavras muito mais fortes:
fome e sede.
Fome e sede não são desejos superficiais.
Quando sentimos fome, sabemos que precisamos de alimento. Quando sentimos sede, nosso corpo nos lembra que precisa de água. Não conseguimos simplesmente ignorar essas necessidades.
Elas nos movem.
Elas nos fazem procurar aquilo de que precisamos.
É essa imagem que Jesus coloca diante de nós.
Na vida espiritual, também pode nascer uma necessidade interior que já não nos deixa satisfeitos com uma vida superficial.
Uma fome de Deus.
Uma sede de santidade.
Um desejo de fazer a vontade de Deus.
Não se trata apenas de cumprir obrigações religiosas ou de tentar ser uma pessoa melhor.
É algo mais profundo:
querer Deus de verdade.
Querer que Ele esteja no centro da nossa vida.
Querer conhecê-Lo mais.
Querer amá-Lo mais.
Querer que nossas escolhas estejam cada vez mais de acordo com Sua vontade.
Talvez uma maneira simples de descobrir o que realmente desejamos seja fazer uma pergunta muito concreta:
Como seria o meu dia perfeito?
O que precisaria acontecer para que, ao chegar ao fim do dia, eu pudesse dizer: “Hoje foi um dia perfeito”?
Talvez imaginemos um dia sem problemas.
Um dia em que tudo aconteça como planejamos.
Um dia em que recebamos aquilo que esperamos.
Mas existe uma pergunta ainda mais profunda:
E se o meu dia perfeito fosse simplesmente o dia em que fiz a vontade de Deus?
Esse é um desejo que precisa ser aprendido.
Santo Agostinho nos ajuda a compreender que o coração pode ser educado a desejar coisas cada vez maiores. Devemos exercitar nossos desejos. Deus quer dilatar nosso coração.
Por isso, podemos pedir:
“Senhor, eu tenho fome e sede de Vós. Tenho fome e sede de fazer a Vossa vontade.”
Essa oração muda a direção do nosso desejo.
Já não perguntamos apenas:
“O que eu quero que aconteça hoje?”
Começamos a perguntar:
“Senhor, o que Vós quereis de mim hoje?”
E talvez essa seja uma das marcas do crescimento espiritual: deixar de querer apenas que Deus abençoe os nossos planos e aprender a desejar, cada vez mais, os planos de Deus para nós.
Quando essa fome começa a crescer, ela também muda nosso olhar.
Já não enxergamos somente aquilo que acontece conosco.
Começamos a perceber o que acontece ao nosso redor.
Percebemos pessoas cansadas, corações distantes, vidas sem esperança, pessoas que talvez tenham se afastado de Deus.
E nasce uma inquietação diferente.
Não a inquietação de quem quer controlar o mundo.
Mas a de quem começa a desejar:
“Senhor, que sejais amado.”
É nesse momento que a fome deixa de ser apenas uma necessidade pessoal.
Ela começa a se abrir para algo maior.
Quando ouvimos essa palavra, pensamos imediatamente em direitos, deveres, igualdade, correção e no desejo de que cada pessoa receba aquilo que lhe é devido.
Tudo isso faz parte da justiça.
Mas, no Evangelho, a palavra vai muito além.
A justiça está ligada à vontade de Deus e à vida que procura estar de acordo com Ele.
Ter fome e sede de justiça é desejar que Deus reine verdadeiramente em nós.
É querer que nossa vida seja transformada pela graça.
É buscar a verdade, rejeitar o pecado, crescer na caridade e permitir que a vontade de Deus encontre espaço concreto em nossas escolhas.
Por isso, a fome de justiça começa dentro de nós.
Primeiro, eu preciso permitir que Deus transforme o meu próprio coração.
Mas essa fome não termina em mim.
Quando começamos a desejar verdadeiramente que Deus seja amado, surge também um desejo de que outras pessoas possam conhecê-Lo, acolhê-Lo e experimentar Sua presença.
E aqui a quarta Bem-aventurança começa a revelar uma dimensão surpreendente.
Porque o amor de Deus não nos fecha em nós mesmos.
Ele nos abre para os outros.
É nesse ponto que a reflexão de Jacques Philippe se torna especialmente profunda.
Ele nos conduz a uma atitude que pode parecer surpreendente:
acolher a Deus por aqueles que não O acolhem;
amá-Lo por aqueles que não O amam;
confiar n’Ele por aqueles que n’Ele não esperam.
O que isso significa?
Não significa substituir a liberdade de outra pessoa.
Não podemos crer por alguém, escolher por alguém ou obrigar alguém a amar a Deus.
Mas podemos oferecer a Deus a nossa própria resposta de amor.
Onde existe ausência, podemos oferecer presença.
Onde existe indiferença, podemos oferecer adoração.
Onde existe falta de confiança, podemos renovar nossa esperança.
Onde alguém não reza, podemos rezar.
Onde alguém não ama, podemos amar.
É aqui que entra a reparação.
Reparar é permitir que a falta de amor que encontramos no mundo não produza uma falta de amor também em nós.
Em vez de julgar, interceder.
Em vez de condenar, rezar.
Em vez de nos afastarmos, oferecer.
Talvez eu não consiga fazer uma pessoa voltar para Deus.
Mas posso colocá-la diante d’Ele.
Posso dizer:
“Senhor, eu não posso escolher por ela. Mas posso amá-la e confiar em Vós por ela.”
É por isso que a fome e a sede de justiça podem despertar em nós atitudes muito concretas:
Nada disso parece grandioso aos olhos do mundo.
Mas, diante de Deus, o amor nunca é pequeno.
E talvez seja justamente essa a força escondida na quarta Bem-aventurança: a fome e a sede de justiça podem transformar nossa própria vida em uma resposta de amor.
Mas onde encontrar o sustento para uma fome que não se contenta com as coisas deste mundo?
É na Eucaristia que a nossa fome e sede de justiça encontra seu verdadeiro alimento. Ao receber Jesus na Comunhão, tornamo-nos um só com Ele. É nesse encontro silencioso, tão íntimo e profundo, que nossa alma encontra forças para continuar desejando aquilo que é justo, santo e agradável a Deus.
Mas Jesus não nos alimenta para que permaneçamos acomodados. Ele nos alimenta para que possamos transbordar.
É muitas vezes depois da Comunhão, naquele momento de ação de graças, ainda ao pé do altar, que percebemos que nossa própria presença pode se transformar em oração. Podemos colocar diante do Senhor as pessoas que amamos, nossa família, as dores do mundo e tantas situações que parecem pedir uma resposta que não somos capazes de oferecer sozinhos.
E, entre lágrimas de gratidão, silêncio e entrega, podemos também oferecer ao Senhor aquilo que Ele tanto espera de nós: uma vida que se torna reparação, oração e amor.
Assim, a Eucaristia deixa de ser apenas um rito que cumprimos e passa a ocupar o centro da nossa vida. Torna-se alimento para o caminho, força para recomeçar e remédio para um coração que ainda precisa ser transformado.
Porque, quanto mais nos alimentamos de Cristo, mais o nosso coração vai sendo dilatado para desejar as coisas do Alto — e para ter fome e sede não apenas de uma justiça que queremos ver no mundo, mas daquela justiça que começa dentro de nós.
Foi justamente aqui que as palavras de Jacques Philippe me fizeram lembrar de Fátima.
Em 1916, antes das aparições de Nossa Senhora, o Anjo de Portugal apareceu aos três pastorinhos e lhes ensinou uma oração de reparação:
Oração do Anjo de Portugal
“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos.
Peço-Vos perdão por aqueles que não creem,
não adoram, não esperam e não Vos amam.”
Há algo muito profundo na estrutura dessa oração.
Primeiro, vem a resposta pessoal:
Eu creio.
Eu adoro.
Eu espero.
Eu amo.
Só depois ela se abre para os outros:
“Peço-Vos perdão por aqueles…”
E aqui encontramos um eco muito forte daquilo que Jacques Philippe apresenta.
No livro:
acolher a Deus por aqueles que não O acolhem;
amá-Lo por aqueles que não O amam;
confiar n’Ele por aqueles que n’Ele não esperam.
Na oração do Anjo:
crer, adorar, esperar e amar — também em reparação por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não amam.
Não são palavras idênticas.
Mas existe entre elas uma profunda sintonia espiritual.
Em ambas, a falta de resposta a Deus não conduz primeiro ao julgamento.
Conduz a uma resposta maior de amor.
É como se a alma dissesse:
“Senhor, onde existe uma ausência, permiti-me oferecer uma presença.”
E talvez essa seja uma das partes mais bonitas da oração do Anjo.
Ela não começa apontando para a falta dos outros.
Ela começa comigo.
Eu creio.
Eu adoro.
Eu espero.
Eu amo.
Antes de olhar para quem não crê, eu sou convidada a crer.
Antes de lamentar quem não ama, sou convidada a amar.
A reparação começa no próprio coração.
Mas existe uma consequência ainda mais profunda.
Quanto mais amamos alguém, mais nos dói vê-lo desprezado.
Quando alguém que amamos é ferido, também sofremos.
Quando alguém querido é rejeitado, sentimos sua dor de alguma maneira.
E talvez aconteça algo semelhante quando nosso amor por Deus começa a crescer.
Surge uma dor que já não diz respeito apenas a nós.
A dor de ver Deus não amado.
O salmista expressa isso de uma maneira muito forte:
“Muitas lágrimas correram de meus olhos, por não ver observada a vossa Lei.”
Salmo 119,136
Não é a dor de quem se sente superior.
Não é a indignação de quem aponta o dedo.
É uma dor que nasce do amor.
Porque, quanto mais alguém ama, mais sofre quando o amado é desprezado.
É aqui que podemos perceber uma mudança muito bonita na vida espiritual.
No começo, muitas vezes rezamos principalmente por aquilo que precisamos.
Pedimos ajuda.
Pedimos consolo.
Pedimos respostas.
E tudo isso é legítimo.
Mas, à medida que o amor por Deus amadurece, nossa oração pode começar a mudar.
Já não perguntamos apenas:
“Senhor, o que preciso receber de Vós?”
Começamos também a perguntar:
“Senhor, o que posso oferecer-Vos?”
E entre as coisas que podemos oferecer está justamente nosso amor, nossa oração, nossa reparação.
Talvez nenhuma frase expresse melhor essa dor do que aquela atribuída a São Francisco de Assis:
“O Amor não é amado!”
É uma frase pequena.
Mas carrega uma imensa profundidade.
São Francisco havia descoberto o amor de Deus de tal maneira que a maior dor já não era simplesmente aquilo que lhe faltava.
Era perceber que o próprio Amor não era amado.
E aqui está o ponto em que a quarta Bem-aventurança toca o coração.
Ter fome e sede de justiça é desejar que Deus seja amado.
É sofrer, não por ressentimento, mas porque o coração descobriu o valor daquele que ama.
É deixar que essa dor se transforme em oração.
É transformar a tristeza em oferta.
É responder ao desamor com mais amor.
Talvez seja justamente isso que Deus queira despertar em nós:
não um coração ocupado em observar quem está fazendo certo ou errado, mas um coração que, diante da falta de amor, pergunta:
“O que posso oferecer?”
E, quando perceber que Deus não é amado, talvez a resposta seja simplesmente esta:
amá-Lo mais.
A mansidão não se constrói de um dia para o outro. Descubra 21 exercícios práticos para transformar o coração e viver a mansidão no dia a dia.
📖 Ler: Como viver a mansidão no dia a diaA quarta Bem-aventurança começou com uma pergunta:
O que significa ter fome e sede de justiça?
Talvez agora possamos responder:
é ter fome de Deus.
É desejar que Ele seja conhecido, amado e acolhido.
É permitir que esse desejo transforme nossa oração, nossa reparação e nossa maneira de olhar para os outros.
E talvez seja por isso que a oração do Anjo de Fátima ressoe tão profundamente:
“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos.”
Que essa também seja a nossa resposta.
Que, diante de um mundo onde tantas vezes o Amor não é amado, nosso coração não se feche.
Que ame mais.
Que reze mais.
Que confie mais.
Porque uma pequena fome e sede de justiça, quando acolhida, pode se transformar em um grande amor.
Que a fome e a sede de justiça se transformem, hoje, em uma decisão concreta de amar mais a Deus.
Esta reflexão pode ser exatamente a palavra que alguém está precisando hoje.
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