Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Essa promessa de Jesus nos convida a olhar para o perdão de uma maneira diferente: não apenas pensando naquilo que o outro nos fez, mas lembrando da misericórdia que nós mesmas recebemos de Deus.
Essa bem-aventurança é bonita, mas também exigente. Ela nos coloca diante de uma pergunta difícil: se eu preciso tanto da misericórdia de Deus, como posso negar misericórdia a quem me feriu?
Talvez ainda exista alguém que você não conseguiu perdoar. Uma pessoa que, só de lembrar o que aconteceu, faz o coração voltar a cobrar aquela dívida.
Mas a misericórdia cristã nos convida a olhar para além daquilo que o outro fez.
Antes de olhar para a dívida do outro, precisamos lembrar da nossa própria miséria e da infinita misericórdia que recebemos de Deus.
O que Ele está esperando de mim diante disso?
Esta caminhada pela misericórdia começou olhando para uma história no cinema.
Quer conhecer o primeiro passo?
Quando vemos alguém sofrendo, podemos sentir pena. Podemos até nos comover com aquilo que aconteceu. Mas a misericórdia cristã vai além do sentimento.
Na aula do Clube do Livro da Ana Clara Freire, uma ideia ficou muito forte: misericórdia é compaixão que se move para a ação. É como se o coração não conseguisse permanecer indiferente diante da miséria do outro.
Por isso, ser misericordiosa não significa simplesmente pensar: “Que pena que isso aconteceu com essa pessoa.” Significa permitir que Deus mude a maneira como eu me posiciono diante dela.
E isso se torna especialmente difícil quando a miséria do outro vem acompanhada de uma ferida que me atingiu . É fácil ter compaixão por alguém que sofre. Mais difícil é olhar com misericórdia para alguém que nos fez sofrer. Talvez seja justamente aí que Jesus queira começar a trabalhar em nosso coração.
A misericórdia não apaga o mal cometido, não chama a injustiça de bem e não exige que ignoremos o que aconteceu. Ela nos convida a olhar para aquela pessoa além da sua falta. Porque ninguém é reduzido aos maus atos que tenha feito.
Aquele que errou continua sendo uma pessoa diante de Deus. Uma alma que ainda pode se converter, ser alcançada pela graça e encontrar o caminho de volta.
É por isso que a misericórdia exige mais do que sensibilidade. Ela exige um coração que se deixa mover por Deus. E talvez a primeira mudança não seja conseguir sentir algo diferente por quem nos feriu.
Talvez seja simplesmente conseguir dizer:
“Jesus, eu ainda não consigo olhar para essa pessoa com misericórdia. Mas eu quero aprender.”
É fácil lembrar o que o outro nos fez. A palavra que feriu, a injustiça, a decepção.
Mas, diante de Deus, existe outra pergunta: e quanto eu mesma preciso da misericórdia d’Ele?
Também tenho minhas fraquezas, minhas quedas e aquilo que somente Deus conhece. E, ainda assim, Ele me perdoa e me oferece a graça de recomeçar.
Talvez seja esse o convite da Parábola do Servo Mau: lembrar que a nossa dívida com Deus era impagável — como os 10 mil talentos da parábola, equivalentes a uma vida inteira de trabalho —, e Ele nos perdoou por inteiro. Antes de cobrar os trocados do outro, precisamos lembrar que somos pessoas infinitamente perdoadas.
Então, em silêncio, podemos perguntar:
“Senhor, diante de toda a misericórdia que tendes comigo, o que esperais de mim diante dessa pessoa?”
Às vezes, a misericórdia começa simplesmente quando paramos de olhar para o que o outro nos deve e contemplamos o que Deus já fez por nós.
Quando alguém nos machuca, é quase automático começar a fazer contas.
Quanto eu fiz por essa pessoa? Quanto ela fez por mim? Quantas vezes eu perdoei? Quantas vezes ela me feriu?
E, sem perceber, o relacionamento vira uma espécie de acerto de contas.
Mas o amor cristão nos chama para outro caminho.
O amor não sabe fazer contas.
Isso não significa fingir que nada aconteceu. Significa não deixar a dívida ocupar o lugar da pessoa dentro do nosso coração.
Talvez você ainda não consiga esquecer. Talvez ainda doa. Mas pode começar por algo muito simples: pare de cobrar dentro de você.
Quando aquela lembrança voltar, em vez de repassar a história mais uma vez, diga:
“Jesus, eu entrego isso a Vós. Cuidai dessa pessoa e cuidai de mim.”
É um pequeno passo. Amanhã, talvez seja preciso repeti-lo.
E, pouco a pouco, aquilo que antes era uma conta aberta começa a ser colocado nas mãos de Deus.
Porque perdoar não é dizer que não doeu. É decidir que a dor não terá a última palavra.
Às vezes, uma pessoa nos machuca tanto que passamos a enxergá-la somente por aquilo que ela fez.
Ela mentiu. Ela caluniou. Ela nos decepcionou.
E aquela atitude passa a definir a pessoa inteira dentro de nós.
Mas Deus vê além daquele momento.
Ninguém é reduzido aos atos maus que tenha feito.
Isso não significa negar o mal ou fingir que não aconteceu. Significa lembrar que aquela pessoa também tem uma alma e que Deus ainda pode agir nela.
Talvez eu não consiga mudar o que aconteceu. Mas posso pedir a Jesus a graça de não fechar a porta para a conversão daquela pessoa.
Eu não preciso desejar o mal de quem me fez mal. Posso simplesmente entregá-la a Deus.
Perdoar não significa voltar a confiar imediatamente, esquecer o que aconteceu ou permitir que alguém continue nos ferindo.
Às vezes, perdoar começa de uma maneira muito mais simples: não desejar o mal.
Quando você ainda não consegue se aproximar daquela pessoa, pode começar rezando por ela.
“Jesus, cuida dela.”
“Jesus, mostra-lhe o caminho.”
“Jesus, salva a alma dela.”
Talvez essa oração pareça pequena. Mas ela muda alguma coisa dentro de nós.
A pessoa que antes ocupava nosso coração como uma dívida começa a ser colocada nas mãos de Deus.
E podemos dizer, mesmo entre lágrimas:
“Jesus, eu quero a Vós. E quero também a salvação dessa pessoa.”
Talvez você tenha chegado até aqui pensando:
“Eu quero perdoar, mas ainda não consigo.”
Então não finja diante de Jesus.
Diga a verdade.
“Senhor, ainda dói.”
“Eu ainda me lembro.”
“Eu ainda não consigo.”
E depois acrescente:
“Mas eu quero querer perdoar.”
Isso também é oração.
Repita quantas vezes for preciso:
“Senhor, tende piedade de mim.”
“Senhor, eu confio em Vós.”
O perdão pode ser um caminho. Hoje você entrega um pouco. Amanhã, entrega novamente.
Não espere primeiro sentir vontade para depois pedir a graça.
Peça a graça, mesmo sem sentir.
Quando alguém nos fere, é fácil ficar presa a uma única pergunta:
“Como essa pessoa pôde fazer isso comigo?”
Mas existe outra pergunta, talvez mais importante:
“Senhor, o que Vós esperais de mim diante disso?”
Eu posso não entender o que aconteceu.
Posso não saber o que fazer.
Então posso simplesmente parar e perguntar a Jesus.
Talvez Ele esteja me pedindo silêncio.
Talvez uma oração.
Talvez que eu pare de alimentar aquela lembrança.
Talvez que eu entregue aquela pessoa a Ele.
Não preciso resolver tudo sozinha.
Posso colocar Deus dentro da situação.
“Jesus, eu não estou enxergando. Mostrai-me o caminho.”
E voltar o coração para Ele.
Corações ao Alto.
Existe uma alegria silenciosa quando percebemos que já não precisamos cobrar aquela dívida.
Não porque o que aconteceu deixou de doer. Mas por que entregamos a Deus aquilo que não conseguíamos resolver sozinhas.
Um dia, talvez você consiga lembrar daquela pessoa sem a mesma raiva.
E, nesse momento, perceberá:
“Eu não esqueci o que aconteceu. Mas já não estou presa a isso.”
É a liberdade de quem deixou de carregar uma conta aberta e começou a confiar na justiça e na misericórdia de Deus.
Saboreie essa alegria.
Um tema tão importante como a misericórdia não se encerra em algumas leituras. Na verdade, ele está apenas começando.
Porque a misericórdia é um ato por Deus, para o próximo e por nós mesmas. É um caminho que começa no coração e, pouco a pouco, transforma a maneira como olhamos para quem nos feriu, para a nossa própria miséria e para a misericórdia que recebemos de Deus.
E talvez o verdadeiro milagre do perdão aconteça justamente quando conseguirmos dizer, de coração:
“Jesus, eu quero a Vós. E quero também a salvação dessa pessoa.”
Então, pouco a pouco, podemos descobrir a alegria de uma alma que deixou de cobrar e começou a amar.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
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