A indulgência plenária é uma graça concedida pela Igreja Católica que consiste na remissão de toda a pena temporal devida pelos pecados cuja culpa já foi perdoada. E você sabia que podemos oferecê-la em sufrágio pelas almas do purgatório?
O mês de novembro nos convida a recordar, com carinho e esperança, aqueles que já partiram desta vida. São familiares, amigos e tantas pessoas cujos nomes continuam guardados em nosso coração.
Por meio da comunhão dos santos, permanecemos unidos em Cristo e podemos manifestar nosso amor pelos fiéis falecidos através das orações, da Santa Missa e das indulgências.
Existe uma oportunidade especialmente importante nos primeiros dias de novembro: a visita ao cemitério, acompanhada de oração pelos falecidos, que pode nos permitir lucrar uma indulgência plenária em cada dia, de 1º a 8 de novembro, observadas as condições estabelecidas pela Igreja.
Hoje, vamos dar um passo adiante e compreender como podemos oferecer as indulgências plenárias por essas almas, seguindo os ensinamentos da Igreja.
Quer compreender melhor como podemos ajudar os fiéis falecidos por meio da oração?
Leia também: Como Rezar pelas Almas do PurgatórioPara compreender a indulgência plenária, precisamos recordar uma verdade muito bonita da nossa fé: a comunhão dos santos.
A Igreja não é formada apenas por aqueles que ainda vivem na Terra. Somos unidos em Cristo aos que já chegaram à glória do Céu e também àqueles que passam pela purificação no purgatório.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que existe uma união espiritual entre todos os membros do Corpo de Cristo.
Essa comunhão nos permite interceder uns pelos outros. Assim como rezamos por alguém que enfrenta dificuldades nesta vida, também podemos rezar pelos fiéis falecidos.
As almas do purgatório já têm assegurada a salvação eterna, mas ainda precisam ser purificadas para entrar na plena alegria da presença de Deus.
Por isso, nossas orações, a Santa Missa, as obras de caridade e as indulgências podem ser oferecidas por elas.
É uma maneira de continuar amando, mesmo quando já não podemos abraçar ou conversar com quem partiu.
A indulgência plenária é uma graça concedida pela Igreja que consiste na remissão, diante de Deus, de toda a pena temporal devida pelos pecados cuja culpa já foi perdoada.
Para compreender melhor, precisamos distinguir duas consequências do pecado: a culpa e a pena temporal.
Quando cometemos um pecado, ofendemos a Deus e precisamos buscar o seu perdão. No sacramento da Reconciliação, recebemos a absolvição sacramental quando estamos verdadeiramente arrependidos e dispostos à conversão.
Entretanto, mesmo depois do perdão, podem permanecer consequências que exigem reparação e purificação.
Podemos pensar em um exemplo simples: quando quebramos algo de alguém, pedir desculpas é fundamental, mas também precisamos procurar reparar o dano causado.
Na vida espiritual, a realidade é mais profunda, mas o exemplo nos ajuda a compreender que o perdão não elimina necessariamente todas as consequências de nossas escolhas.
É justamente nesse contexto que entram as indulgências.
A Igreja, como dispensadora da redenção de Cristo, aplica aos fiéis o tesouro espiritual dos méritos de Jesus Cristo e dos santos.
Esse tesouro não é uma riqueza material nem algo que possamos contabilizar. Sua fonte é a obra salvadora de Cristo, especialmente sua Paixão e Ressurreição.
As indulgências podem ser:
Parciais: quando concedem a remissão de parte da pena temporal.
Plenárias: quando concedem a remissão de toda a pena temporal.
E existe algo muito especial: podemos lucrar uma indulgência para nós mesmos ou oferecê-la em sufrágio pelos fiéis falecidos.
Quando a oferecemos pelos falecidos, confiamos à misericórdia de Deus a aplicação dessa graça às almas do purgatório.
É importante compreender que não basta realizar uma visita ou repetir determinadas orações. A obra indulgenciada precisa estar acompanhada das condições espirituais estabelecidas pela Igreja.
São elas:
1. Confissão sacramental
É necessário receber o sacramento da Reconciliação, com verdadeiro arrependimento e propósito de conversão.
A confissão não precisa acontecer necessariamente no mesmo dia da obra indulgenciada. Conforme a orientação da Penitenciaria Apostólica, pode ser realizada alguns dias antes ou depois, em um intervalo de aproximadamente 20 dias.
Uma única confissão sacramental pode servir para várias indulgências plenárias, desde que sejam observadas as demais condições.
O fiel deve estar em estado de graça ao realizar a obra indulgenciada.
2. Comunhão eucarística
É necessário receber a Sagrada Comunhão.
Para cada indulgência plenária, são necessárias uma comunhão e uma oração pelas intenções do Santo Padre. Assim, quem deseja lucrar uma indulgência em cada dia, de 1º a 8 de novembro, deverá receber a Eucaristia e rezar pelas intenções do Papa em cada uma dessas ocasiões.
3. Oração pelas intenções do Papa
Devemos rezar pelas intenções do Santo Padre.
A Igreja sugere, por exemplo, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, embora outras orações também possam ser utilizadas.
Essa oração é necessária para cada indulgência plenária.
4. Desapego de todo pecado, inclusive venial
Esta condição merece uma atenção especial.
Não significa que nunca mais teremos tentações ou que deixaremos de experimentar nossas fraquezas humanas.
Significa que precisamos ter uma disposição interior sincera de rejeitar todo pecado, sem conservar apego a ele.
É desejar verdadeiramente uma vida mais próxima de Deus.
Podemos aproveitar essa oportunidade para fazer um exame de consciência:
– Tenho alimentado impaciência com as pessoas da minha convivência?
– Tenho dificuldade de perdoar ou reconhecer meus erros?
– Costumo falar dos outros sem necessidade?
– Tenho deixado a preguiça dominar minhas responsabilidades?
– Existe algum comportamento que sei que preciso mudar, mas continuo justificando?
São perguntas simples, mas que podem nos ajudar a reconhecer o que precisa ser transformado.
A indulgência não é uma fórmula automática. É uma oportunidade de conversão, que exige uma disposição verdadeira de amar a Deus acima de todas as coisas.
Uma observação: para cada indulgência plenária, além dessas condições, é necessário realizar a obra à qual a indulgência está concedida. Também é preciso ter a intenção, ao menos geral, de lucrá-la.
Chegamos à prática que merece nossa atenção neste mês.
Conforme o Manual das Indulgências, a Igreja concede uma indulgência plenária, aplicável exclusivamente aos fiéis falecidos, a quem visitar devotamente um cemitério e rezar pelos defuntos, ainda que apenas mentalmente, em cada um dos dias de 1º a 8 de novembro.
Isso significa que podemos lucrar uma indulgência plenária por dia, observadas as demais condições.
Como colocar essa prática em ação?
1. Escolha um cemitério que possa visitar.
2. Faça a visita com respeito e recolhimento.
3. Reze pelos fiéis falecidos, mesmo que não esteja diante do túmulo de um familiar.
4. Procure cumprir as condições da confissão, da comunhão e da oração pelas intenções do Papa.
5. Tenha uma disposição sincera de desapego de todo pecado, inclusive venial.
Não é necessário visitar um túmulo específico. A oração pode ser oferecida por todos os fiéis falecidos.
E se você estiver legitimamente impedido de visitar o cemitério? Não transforme essa situação em motivo de angústia. A Igreja prevê a possibilidade de o confessor comutar a obra prescrita e determinadas condições para quem está legitimamente impedido. Converse com um sacerdote para receber a orientação adequada.
Além da concessão referente à visita ao cemitério, existe outra possibilidade especial.
No dia 2 de novembro, Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, podemos lucrar uma indulgência plenária visitando devotamente uma igreja ou oratório e rezando ali:
– Um Pai-Nosso;
– O Credo.
A concessão referente à visita à igreja pode, com o consentimento do bispo diocesano, ser transferida para o domingo anterior, o domingo seguinte ou a Solenidade de Todos os Santos.
Atenção: A indulgência plenária concedida por ocasião do Dia de Finados pode ser lucrada uma vez nesse dia. Conforme a norma 15 da Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, com o consentimento do Ordinário local (bispo diocesano), a visita à igreja ou ao oratório pode ser transferida para o domingo anterior ou seguinte.
É importante esclarecer que a possibilidade de obter essa indulgência em outros dias de novembro, além dessas condições, foi uma concessão excepcional da Penitenciária Apostólica durante a pandemia de Covid-19, em 2020. Portanto, não deve ser entendida como uma autorização permanente para todos os anos.
Sim! Você pode oferecer a indulgência em sufrágio por um familiar falecido, por alguém que marcou sua vida ou por qualquer fiel falecido.
Também pode rezar por aqueles que morreram sem ter alguém que se lembre deles.
Não precisamos conhecer pessoalmente todas as pessoas pelas quais rezamos. A caridade cristã não depende de proximidade, reconhecimento ou recompensa.
Entretanto, precisamos compreender que não somos nós que determinamos o destino de uma alma ou a maneira como Deus aplica essa graça.
Não podemos afirmar que determinada pessoa certamente saiu do purgatório por causa de uma oração ou indulgência que oferecemos.
Nossa parte é cumprir com amor as condições estabelecidas pela Igreja e confiar os frutos à misericórdia divina.
Para compreender melhor a importância de rezarmos pelas almas do Purgatório, vale a pena dedicar alguns momentos à reflexão sobre suas penas.
As meditações a seguir, tradicionalmente atribuídas a Santo Afonso Maria de Ligório, nos ajudam a pensar sobre a purificação da alma, o valor do tempo, a misericórdia de Deus e, sobretudo, o desejo de estar plenamente unido a Ele.
As imagens e expressões utilizadas pertencem à tradição espiritual de meditação sobre o Purgatório. Não devem ser entendidas como uma descrição detalhada e oficialmente definida pela Igreja sobre a condição das almas, mas como reflexões que nos convidam a considerar a seriedade do pecado e a necessidade de purificação.
Leia cada reflexão com calma, sem pressa. Mais do que conhecer os sofrimentos das almas, que essa leitura desperte em nós uma caridade ainda maior e o desejo de oferecer orações por aqueles que aguardam a plenitude da comunhão com Deus.
São muitas as penas que sofrem as benditas almas do Purgatório; mas a maior de todas é o pensamento de que foram elas próprias a causa dos seus sofrimentos pelos pecados que cometeram em sua vida.
A pena que, em segundo lugar, atormenta excessivamente as benditas almas é a recordação do tempo que perderam em sua vida, durante o qual teriam podido adquirir maiores méritos para o Céu, e a lembrança de que essa perda é para sempre irreparável, pois que, com a vida, termina o tempo de merecer.
Outra pena das maiores, que afligem as benditas almas do Purgatório, é a consideração dos pecados que estão expiando. Na vida presente não se conhece bem a fealdade dos pecados, mas compreende-se claramente na outra, e essa é uma das mais vivas dores que sofrem as almas do Purgatório.
Aumenta também o sofrimento das benditas almas do Purgatório a lembrança dos benefícios particulares que receberam de Deus, como o ter nascido em país católico, ter recebido o batismo e haver Jesus esperado que fizessem penitência de seus pecados para conseguirem o perdão, porque todos esses favores lhes fazem conhecer agora melhor a ingratidão com que corresponderam a Deus.
Outra pena que muito aflige no Purgatório as almas, esposas de Jesus Cristo, é o pensamento de que, durante a vida, desgostaram com suas culpas aquele Deus a quem tanto amam. Têm-se visto penitentes morrer de dor ao meditar que ofenderam a um Deus tão bom. Muito melhor que nós, conhecem as almas do Purgatório quão amável é Deus e, por conseguinte, amam-no com todas as forças do seu coração. Ao meditar que o desgostaram nesta vida, experimentam uma dor superior a qualquer outra.
Quanto maior é a consolação que às benditas almas do Purgatório proporciona a recordação da Paixão de Jesus Cristo, por cujos méritos se salvaram, e do Santíssimo Sacramento do altar, que tantas graças lhes dispensou e dispensa ainda, por meio de Santas Missas e comunhões por elas aplicadas, tanto mais se atormenta o pensamento de não terem correspondido durante a vida a esses dois grandes benefícios do amor de Jesus Cristo.
Outra pena que tortura horrivelmente as benditas almas do Purgatório é o terem de sofrer os ardores dum fogo abrasador, sem saber quando terão fim os seus tormentos. É verdade que têm a certeza de ver-se um dia livres deles; mas é um tormento gravíssimo para elas a incerteza do tempo em que hão de acabar.
Outra pena, que muito tortura as benditas almas do Purgatório, é o pensamento de que, durante a sua vida, Deus usou para com elas de muitas misericórdias especiais que não dispensou a muitas outras; e a lembrança também de que, com os seus pecados, o obrigaram muitas vezes a retirar-lhes a sua amizade e a condená-las ao Inferno, posto que depois lhes haja concedido o perdão e a graça da salvação.
São grandes todas as penas que sofrem as almas do Purgatório: o fogo, o tédio, a escuridão, a incerteza do tempo em que hão de ver-se livres de todos esses tormentos; mas a maior de todas é o verem-se separadas do seu divino Esposo e privadas dos prazeres da sua companhia.
Em 2024, fiz esse caminho de preparação e cumpri as condições para lucrar uma indulgência plenária, oferecendo-a em sufrágio pela alma do meu pai, que faleceu em 2022.
Desde então, algo mudou na maneira como rezo pelos falecidos. Passei a me lembrar deles com mais frequência, inclusive durante a liturgia eucarística da Santa Missa.
Comecei a incluir nas minhas orações não apenas os familiares que conheci, mas também aqueles que vieram antes de mim e cujas histórias sequer tive a oportunidade de conhecer. Rezo pelos meus familiares das gerações materna e paterna, até a décima geração, e também pelos familiares falecidos do meu marido, tanto da parte materna quanto da paterna.
É uma intenção que carrego comigo, porque acredito que a caridade não precisa ficar limitada àqueles cujos rostos conhecemos ou de quem guardamos lembranças.
As orações não se perdem. Não sabemos como Deus acolhe e aplica cada uma delas, mas podemos confiar que nenhum gesto sincero de amor fica fora de sua misericórdia.
E essa experiência também me levou a uma reflexão ainda maior: o que nos cabe aqui na Terra é aprender a amar a Deus, porque o Céu é a comunhão perfeita com Ele.
Se o Céu é a felicidade de estar plenamente unido a Deus, precisamos começar a desejar essa união desde agora. Toda a vida cristã consiste em aprender, pela graça, a conhecê-Lo, amá-Lo e ordenar todas as coisas segundo sua vontade.
Esse amor cresce na oração, nos Sacramentos, na obediência, no combate contra o pecado e na fidelidade aos deveres de cada dia. Cada escolha feita por amor a Deus educa o coração para aquilo que esperamos possuir plenamente na eternidade.
Desejar o Céu exige também desejar Aquele que é a própria felicidade dos santos.
Por isso, a vida presente possui um valor tão grande: nela aprendemos a amar o Deus que esperamos contemplar face a face.
E enquanto caminhamos em direção a Ele, podemos continuar exercitando esse amor por meio da oração pelos que partiram, confiando cada alma à sua infinita misericórdia.
Ao longo desta reflexão, vimos que a Igreja nos oferece caminhos concretos para manifestar nosso amor pelos fiéis falecidos: a oração, a Santa Missa, as indulgências e a caridade em favor daqueles que já partiram.
Mas não precisamos esperar novembro para nos lembrarmos deles. Podemos rezar pelos nossos familiares, amigos, por aqueles que não conhecemos, pelos que morreram sem receber uma oração e também por quem está vivendo seus últimos momentos neste instante.
Não sabemos quais almas necessitam de nossas orações, mas podemos confiar todos esses irmãos à misericórdia de Deus.
Que essa lembrança não fique restrita ao mês de novembro. Que seja uma oportunidade de crescermos na fé, na esperança e na caridade, aprendendo a amar também aqueles que já não podemos abraçar.
Que Deus, em sua infinita misericórdia, acolha as almas dos fiéis falecidos e nos ensine a viver com os olhos voltados para a eternidade. Amém.
Para aprofundar o ensinamento da Igreja sobre as indulgências e compreender melhor as orientações apresentadas neste artigo, consulte:
1. Catecismo da Igreja Católica — §§ 1471–1479. Apresenta a doutrina das indulgências, sua natureza e sua aplicação em favor dos fiéis falecidos. Consultar os §§ 1471–1479 — Vaticano. Vaticano
2. Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina — Papa Paulo VI (1º de janeiro de 1967), especialmente as normas 15 e 16. Trata da doutrina e da disciplina das indulgências. A norma 15 prevê a possibilidade de transferência da indulgência de 2 de novembro para o domingo anterior ou seguinte, com o consentimento do Ordinário local. Ler o documento — Vaticano. Vaticano
3. Decreto da Penitenciaria Apostólica sobre as indulgências plenárias no mês dos Defuntos — 22 de outubro de 2020. Concedeu, excepcionalmente durante a pandemia de Covid-19, a possibilidade de transferir para outros dias de novembro as indulgências aplicáveis aos falecidos, observadas as condições e adaptações estabelecidas no decreto. Ler o decreto — Vaticano. Vaticano
4. O Dom da Indulgência — Penitenciaria Apostólica (29 de janeiro de 2000). Reúne orientações gerais sobre a obtenção das indulgências e as disposições necessárias para lucrá-las, além de orientações próprias do Jubileu de 2000. Ler o documento — Vaticano. Vaticano
5. Indulgência plenária aplicável aos mortos — CNBB (6 de novembro de 2023). Artigo de Dom João Bosco Óliver de Faria, com explicações complementares sobre as indulgências oferecidas pelos fiéis falecidos. Ler o artigo — CNBB. CNBB
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