Quaresma de São Miguel com quatro meditações que formam um caminho muito bonito: a cruz, o chamado, a luz e a caridade.
No 27º dia, Nossa Senhora das Dores nos ensina a permanecer com Jesus mesmo quando a vida dói. No 28º, somos convidados a reconhecer que Deus tem um propósito para cada vida e nos chama pelo nome. No 29º, descobrimos que seguir Cristo significa deixar Sua luz aparecer em nossas atitudes. E, no 30º, essa luz se transforma em cuidado concreto com quem sofre.
É um caminho que começa no encontro com Deus e chega ao encontro com o próximo.
O 27º dia foi dedicado a Nossa Senhora das Dores, contemplando sua presença aos pés da cruz.
São João registra:
“Estava junto à cruz de Jesus sua mãe.” (João 19,25)
Maria não abandonou Jesus no momento mais doloroso.
Desde a Anunciação, ela havia aprendido a confiar na vontade de Deus:
“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lucas 1,38)
Esse “sim” continuou durante toda a sua vida.
A perseguição contra Jesus começou ainda na infância. Em Mateus 2,13-14, José recebe de Deus a orientação para fugir com Maria e o Menino para o Egito.
Não era uma mudança planejada. Era uma fuga diante do perigo.
Quantas vezes também somos surpreendidas por situações que não estavam nos nossos planos?
Uma doença, uma perda, uma dificuldade familiar, uma preocupação com os filhos ou uma situação que exige decisões difíceis.
Maria e José também passaram por momentos assim.
São Paulo nos lembra:
“Deus é fiel e não permitirá que sejais provados acima das vossas forças.” (1Coríntios 10,13)
Isso não significa ausência de sofrimento, mas presença de Deus no meio dele.
Simeão anunciou a Maria:
“E uma espada transpassará a tua alma.” (Lucas 2,35)
Ela conheceu a dor de uma mãe.
Por isso, tantas mães que enfrentam perdas, preocupações ou sofrimentos pelos filhos podem encontrar nela uma companhia muito especial.
Nossa Senhora sabe o que significa amar profundamente e sofrer.
Quando Jesus vê sua Mãe e o discípulo amado, diz:
“Mulher, eis aí o teu filho.” (João 19,26)
E a João:
“Eis aí tua mãe.” (João 19,27)
João a recebe em sua casa.
Também somos convidados a acolher Maria em nossa vida. Ela não toma o lugar de Jesus. Pelo contrário, tudo nela conduz ao Filho.
Em Caná, sua orientação permanece simples e profunda:
“Fazei o que Ele vos disser.” (João 2,5)
Em Lucas 2,48, Maria e José percebem que Jesus não está com eles e saem à sua procura.
Essa passagem também pode nos fazer pensar na nossa vida espiritual.
Às vezes nos afastamos de Deus aos poucos: deixamos a oração, adiamos a Confissão, alimentamos uma mágoa ou permitimos que as preocupações ocupem todo o espaço.
Quando isso acontecer, é preciso voltar a procurar Jesus.
Maria nos ensina esse caminho.
Ela permanece junto à cruz e continua apontando para Cristo.
Quais são as minhas maiores dores hoje?
Coloque-as nas mãos de Nossa Senhora e peça que ela as leve a Jesus.
Não precisamos compreender tudo para confiar.
Precisamos aprender a permanecer.
Assista à meditação completa do 27º dia no YouTube
Depois de contemplarmos Maria junto à cruz, o 28º dia nos leva a olhar para nossa própria história.
O profeta Jeremias escreve:
“Antes que te formasse no seio materno, eu te conheci.” (Jeremias 1,5)
Deus conhece cada pessoa e pode chamá-la em qualquer fase da vida.
Em Êxodo 3,4, Deus chama Moisés pelo nome.
Samuel também foi chamado ainda menino (1Samuel 3,10).
E Mateus estava trabalhando quando Jesus o chamou:
“Segue-me.” (Mateus 9,9)
A resposta de Mateus foi levantar-se e seguir.
Isso nos faz pensar nas nossas próprias “cadeiras de conforto”.
Talvez Deus não esteja pedindo uma mudança radical de profissão ou de vida, mas uma mudança na maneira de viver aquilo que já está em nossas mãos.
Jesus afirma:
“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” (João 15,16)
O chamado não acontece porque somos melhores que os outros.
É graça.
Por isso, não devemos julgar a caminhada espiritual de ninguém. Deus pode tocar um coração em qualquer momento e conduzir uma pessoa por caminhos que não imaginávamos.
São Paulo também lembra que Deus não escolhe segundo os critérios humanos de importância ou capacidade (1Coríntios 1,26-27).
São John Henry Newman refletia sobre a missão particular que Deus confia a cada pessoa.
Isso vale para todos os estados de vida.
Pode ser a maternidade, o matrimônio, o trabalho, o cuidado com a família, o serviço na Igreja ou tantas outras responsabilidades.
Santa Teresinha do Menino Jesus resumiu sua vocação de maneira muito simples:
“Minha vocação é o amor.”
Essa perspectiva muda nossa maneira de olhar para a rotina.
Cuidar da família, trabalhar honestamente, educar um filho, ajudar alguém, cumprir uma responsabilidade ou simplesmente tratar uma pessoa com paciência podem ser expressões concretas de amor.
Santa Teresa de Calcutá também ensinava a importância de colocar amor naquilo que fazemos.
Agradeça a Deus pela sua vocação.
E pergunte:
“Senhor, o que estás me pedindo nesta fase da minha vida?”
Talvez a resposta não venha imediatamente.
Mas estar disponível já é uma forma de dizer:
“Eis-me aqui.”
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No 29º dia, a meditação nos desafia a sermos testemunhos vivos das palavras de Jesus:
“Vós sois a luz do mundo. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens.” — Mateus 5,14.16
Mas essa luz não é nossa. Cristo é a luz; nós a refletimos.
O problema não é fazer o bem e ser visto. O problema é buscar o reconhecimento para nós mesmos.
Jesus ensina que nossas boas obras devem conduzir as pessoas à glória do Pai.
Por isso, o terço que rezamos precisa encontrar espaço na vida cotidiana.
Nossa oração deve aparecer na maneira como tratamos as pessoas, lidamos com as dificuldades, trabalhamos e cuidamos da família.
São Paulo escreve:
“Despojemo-nos das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.” (Romanos 13,12)
Esse convite pode nos levar à Confissão.
Um bom exame de consciência exige sinceridade:
Onde tenho pecado? Tenho mentido? Tenho alimentado fofocas?
Tenho sido injusta? Tenho cultivado mágoas?
Tenho deixado de cumprir minhas responsabilidades?
Reconhecer o pecado não deve nos levar ao desânimo, mas ao arrependimento e à busca da reconciliação com Deus.
A Confissão nos oferece esse caminho de retorno.
Jesus diz:
“Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas.” (João 8,12)
São Josemaría Escrivá fala da necessidade de uma vida que produza frutos de fé e amor.
E Santa Teresa de Calcutá lembrava que nossas palavras precisam nascer de uma vida que reflita Cristo.
Isso pode começar de maneira muito simples.
Uma palavra que consola. Um pedido de perdão.
Uma resposta mais paciente. Uma visita. Um sorriso.
Uma atitude que evita uma discussão.
Uma oração por alguém.
Como a reflexão atribuída a Santa Teresa de Calcutá nos recorda: que ninguém encontre nossa presença e vá embora pior do que chegou.
Começar a procurar uma Confissão e fazer um exame de consciência sincero.
Que possamos sair desse encontro com Deus com a alma mais iluminada.
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Depois da cruz, do chamado e da luz, chegamos à caridade.
São Tiago apresenta uma fé que se manifesta no cuidado:
“Assistir os órfãos e as viúvas nas suas tribulações.” (Tiago 1,27)
A vida cristã não pode permanecer apenas nas palavras.
Em Lucas 10,33-34, o Bom Samaritano encontra um homem ferido e decide ajudá-lo.
Ele poderia ter seguido seu caminho. Mas parou. Aproximou-se.
Cuidou. Essa atitude exige sair de nós mesmos.
São Paulo resume:
“Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram.” (Romanos 12,15)
Nem sempre poderemos solucionar o problema de alguém.
Mas podemos estar presentes.
São Paulo nos convida:
“Carregai os fardos uns dos outros.” (Gálatas 6,2)
E em Colossenses 3,12, somos chamados à misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência.
São virtudes que tornam a caridade concreta.
Às vezes será uma ajuda material.
Em outras ocasiões, uma visita. Uma ligação. Uma refeição.
Uma palavra. Ou simplesmente alguns minutos de escuta.
Quando encontramos alguém em extrema pobreza ou sofrimento, podemos ser tentados a procurar primeiro uma explicação para aquela situação.
O Evangelho nos convida a começar pelo cuidado.
Antes de julgar, socorra.
São Camilo de Lellis dedicou sua vida aos enfermos e pobres, vendo no serviço aos necessitados uma maneira concreta de servir a Cristo.
Santa Faustina apresentou três formas de exercer a misericórdia: ação, palavra e oração.
Isso significa que sempre existe alguma maneira de amar.
Se podemos ajudar, ajudemos.
Se podemos consolar, consolemos.
Se não podemos fazer nenhuma dessas coisas, ainda podemos rezar.
Santa Teresinha do Menino Jesus também destacava o valor de uma palavra ou de um sorriso para levar alegria a uma pessoa entristecida.
E Padre Pio apontava o amor como elemento essencial para aliviar o sofrimento.
Peça a Deus:
“Senhor, mostra-me quem posso ajudar.”
Reze por seu Bispo , pelos irmãos falecidos, pelas almas do purgatório e pela salvação das almas.
E coloque também diante de Deus o Projeto da Obra de Guadalupe, seus trabalhadores, empresas e doadores, pedindo que tudo aconteça segundo a Sua vontade.
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Esses quatro dias deixam uma bússola simples para a sua jornada espiritual:
Quatro passos para guardar no coração:
A vida espiritual avança um passo de cada vez. Hoje, talvez o seu passo seja entregar a dor nas mãos de Deus. Amanhã, responder com paciência no lar. Depois, buscar a confissão ou dedicar tempo a quem precisa.
Se você chegou até aqui carregando o peso de muitas responsabilidades — cuidando dos filhos, da casa, da família, do trabalho e das angústias silenciosas que ninguém vê —, saiba que Deus também quer cuidar de você.
Você não precisa carregar tudo sozinha. A mensagem desta caminhada é de entrega e confiança:
– Maria nos mostra que a dor não precisa nos afastar de Cristo;
– O chamado nos lembra que nossa história ordinária tem valor eterno;
– A luz nos renova por dentro;
– A caridade transforma o amor recebido em bênção para os outros.
Não se preocupe apenas com quantos dias faltam para encerrar a Quaresma. Observe a mulher que Deus está moldando em você ao longo desse processo.
As circunstâncias externas podem não mudar da noite para o dia, mas o seu coração pode se tornar mais forte, confiante, misericordioso e próximo de Jesus.
Da cruz à caridade. Um passo de cada vez. Com Maria, com São Miguel e, acima de tudo, com Jesus.
Senhor Jesus,
ensina-me, como Maria, a permanecer junto à cruz quando a vida sair do meu controle. Recebe minhas dores e transforma o peso do meu coração em confiança em Ti.
Mostra-me a minha vocação cotidiana. Que eu reconheça o bem que puseste em minhas mãos e responda com generosidade.
Ilumina minha vida, revela-me o que precisa mudar e dá-me a humildade para buscar o Teu perdão. Abre meus olhos para os que sofrem, para que eu saiba servir por ações, palavras e orações.
Nossa Senhora das Dores, roga por nós e conduz-nos sempre a Jesus.
Amém.
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